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Minimalismo Zen

Minimalismo Zen

Quem queremos ser?

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© Fernando Dinis - All rights reserved

Estamos todos virados para dentro, e se alguém pensa o contrário, estará a adiar uma resignação irreversível, está apenas concentrado em distender uma ilusão com um fim provável, mais do que provável, um fim garantido. Mas que fim é este, como se efectivamente algo chegasse a um termo, quando ironicamente se trata afinal do princípio de tudo? Uma espécie de antes-de e depois-de. Quando a resignação chega – de que o homem é apenas uno, que não sabe viver em sociedade, que esgotou o encantamento, que vive numa assumida mediocridade, que apenas lhe resta um sofrimento permanente – não estará finalmente aberto a ver tudo com melhores olhos; ver para lá do que se finge óbvio, do que sabemos que é a verdadeira existência enquanto nos demoramos a inventar-nos noutras? Como explicar? Chegará sempre o dia (a idade?) em que nos cansamos de fingir, de ‘acreditar’ e o alento esvanecido paulatinamente cessa de vez. O que nos resta? A resignação passa por uma aceitação tácita, ou estaremos a desafiar extremos – como aqueles que nunca aceitando-a se suicidam como forma de libertação, de protesto, de indiferença até… - que sabemos nocivos. Mas aceitamo-los. Há então uma calma que chega e nos tolda os movimentos. Existe finalmente uma explicação para a realidade absurda em que se vive: que é absurda porque ainda existe quem assim a não considere. Por que razão nos identificamos mais com determinadas pessoas? Porque muitas delas já assumiram estar nesse patamar, e poucas nos ensinam a vê-lo. E malogradamente somos obrigados a tratá-las de uma forma diferente. Elas não mudam (algum dia mudarão?); somos nós quem muda a forma como as olha. Como não utilizar então a palavra futilidade? Não pelo significado do que não tem interesse, mas sim, e aqui sim, pela valorização do que é superficial, inútil e material? A dessintonia prevalece desde os actos maiores aos que se repetem na banalidade do quotidiano. A todo o momento somos lembrados e confrontados com quem ainda acredita, com quem ainda não vê, com quem ainda finge não fazer parte de, com quem ainda simula um mundo só para si. Só a experiência de uma tragédia colectiva poderá ser capaz de a determinado momento, numa ínfima fatia diacrónica na história, imbuir transversalmente os homens deste espírito. Até lá, há quem se feche ao mundo inventado, à realidade dos tempos actuais, com todas as deformações de espírito que dela advém. Até lá, haverá sempre uma pequena parte que opta pelo silêncio face à sonora repetição da maioria que aprendeu sem questionar. Até lá, haverá quem opte por comprar uma mala de valor idêntico a cinquenta livros; a escolher o último modelo automóvel com todas as funcionalidades possíveis e não fazer pisca quando é necessário assumir a sua presença aos outros. “Eu não me assumo perante ti, porque não te reconheço.” Até lá, só será feliz quem assumir-se de tolo. Mas tolos são os marginais, os degradados, os evasivos. Neste mundo inventado o lugar deles está bem circunscrito, e são difíceis de se avistarem do alto.

Desligar o Mundo de Nós

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© Fernando Dinis - All rights reserved

Em tempos tive um professor de Ayurveda que afirmava prescindir de ver notícias. Era russo de nacionalidade e tinha passado por vários países, e diferentes realidades, a lecionar e a trabalhar em clínicas de saúde. Era daquelas pessoas que, por tantas vezes mudar, lhe seria indiferente saber se estava em Portugal, na Hungria ou na Índia. Interessava-lhe o Humano – e o Humano existe em qualquer parte do mundo -, o bem-estar do próximo mas, principalmente, o bem-estar de si mesmo. Por diversas vezes nos dizia que trocava os noticiários por séries de comédia. Era assumidamente desligado do mundo, mas profundamente conectado com o próximo. Dizia-nos com alguma frieza: «Posso mudar os males do planeta? Dificilmente. Posso ajudar quem me rodeia? Claro que sim. Para quê sujar a minha mente com problemas pelos quais nada posso fazer? É gastar energia desnecessariamente.» O que à primeira vista nos parecia uma posição insensível, escondia uma sabedoria e uma ferramenta importantes para os dias de hoje.

Quem não se sentiu impotente ao constatar que um camião pode invadir uma avenida repleta de pessoas inocentes e atingi-las sem piedade? Quem não se inquietou e chocou com as imagens de uma pessoa a ser abatida a sangue-frio por um polícia (figura que na sua génese nos dará segurança), em plena transmissão televisiva?

Ocorrem-me as palavras ríspidas do meu antigo professor, quase palavras de desdém por um mundo cada vez mais difícil de compreender e distante do que possamos nós fazer por ele. Escapa-nos das mãos esta realidade feroz e enlouquecida que nos perturba e nos magoa. Infelizmente, olhamos para a História e concluímos que tempos conturbados e violentos são algo que nunca faltou. A nossa pequenez individual é inconsequente a uma estrutura encadeada há centenas e centenas de anos. Há que confiar nos que realmente têm esse poder e esperar que decisões acertadas e corajosas nos tragam fases melhores, dias melhores, anos melhores.

Muitas vezes sinto-me como o meu professor, e desejo apenas esquecer-me do mundo; desencorajar a mente de reflexões, reflexões repetidas infinitamente que em nada a apazigua. Muitas vezes sinto que desligar-me da realidade é uma resposta tão insensível e cobarde quanto acertada e libertadora.

A desculturação do Silêncio

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© Fernando Dinis - All rights reserved

Tinham-se apaixonado um pelo outro só Deus sabe porquê. Mas quando entraram em contacto directo mútuo (…) a companhia exibicionista e ruidosa dela fazia-o retrair-se num embaraço (…). E a minha simpatia ia sempre toda para o meu pai (…) pareço-me muito com ele, e nem um bocadinho com a minha mãe. Lembro-me de como, bem pequenina ainda, eu me encolhia toda ante a sua exuberância. Com o seu feitio, ela constituía uma permanente invasão da privacidade de cada um.

A Ilha, Aldous Huxley

 

Que força impele variadas pessoas serem assim? De onde provirá a energia que alimenta este exibicionismo constante? Não será apenas uma conduta que as fortalece socialmente? O que significa afinal o silêncio para todos nós e para estas pessoas em particular?

Todos teremos alguém conhecido com estas características: um parente que monopoliza o jantar de família, um amigo que só os seus problemas são significativos e urgentes, um colega de trabalho que ruidosamente tagarela, aparentemente imerso numa exaltação que não lhe permite ter o discernimento de que poderá incomodar o trabalho dos outros; ou ainda, que as suas piadas serão sempre bem aceites, pois se não fosse o seu humor, todos estariam sorumbáticos a trabalhar. Há em todos estes casos uma auto-promoção, uma assunção de que os seus discursos não só são válidos como necessários aos demais. São pessoas que requerem a atenção constante de quem os rodeia.

Num mundo electrizante, o silêncio tornou-se um dos bens mais preciosos dos tempos modernos. Mas como olhamos para este bem, se afinal tantas pessoas fogem dele? Existe uma errada aculturação do silêncio. Lembremo-nos dos locais onde ainda crianças nos pediam silêncio: na missa porque deus ouve, nos cemitérios para não incomodar os mortos, na escola para não ficarmos de castigo, em casa a brincar porque o pai lê o jornal e depois ralha. O silêncio sempre nos foi pedido em forma de obrigação e sob pena de um castigo, de maior ou menor consequência.

Seguindo o excerto de Huxley “com o seu feitio, ela constituía uma permanente invasão da privacidade de cada um”, há algo mais forte do que incomodar os outros devido a uma visão errada do silêncio. Estas pessoas sentem monotonia quando deveriam sentir tranquilidade, sentem vazio (e este vazio ameaça-as) em vez de completude. Existem portanto más recordações do silêncio para que exista a necessidade constante de o desvirtuar e evitar.

O homem social é ginasticado para ter uma conversa fluente. Um vendedor vende mais se falar com eloquência. Um locutor de televisão é exímio quando consegue improvisar palavras para se atingir a hora certa do bloco de publicidade. Não importa afinal a mensagem propriamente dita, é sim imperioso que os silêncios não ocorram. Congratula-se a pessoa que esteve a fazer conversa como uma pessoa simpática, e castiga-se o silencioso que parece estar sempre a observar os outros como carrancudo. Voltando à infância, recordem-se do famoso “Estás tão caladinho, só podes estar a tramar alguma!”

A grande dificuldade em muitas pessoas meditarem é, logo à partida, o não aceitarem o ruido que o silêncio tem. Não se trata de contradição. Quando se medita - a máxima procura consciente do silêncio - a nossa concentração foge facilmente da respiração para o fugaz desenrolar de pensamentos, tantos, que se torna difícil abstrair-nos deles. É como se, portanto, eles gritassem ao ponto de perturbar a nossa meditação. E não serão estes pensamentos a escondida razão para que muitas pessoas não consigam meditar? Para que, finalmente, fujam do silêncio que os despoleta, evitando um confronto entre as vozes do interior (involuntária) e do exterior (deliberada/forçada)?  

Ainda que para muitos o silêncio seja tristeza e melancolia, para outros será alívio e bem-estar. É tempo de interiorizar uma nova importância ao silêncio e elevá-lo a uma condição indispensável à quietude prazerosa.

 

Gostar de Viver com Menos

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© Fernando Dinis - All rights reserved

Uma das poucas vantagens em mudar de casa várias vezes é a de aprendermos a viver com menos. Menos objectos, menos mobiliário, menos livros que temos a certeza de nunca os ler, menos televisores, menos, menos, menos.
Ao longo dos anos, desenvolvemos o gosto pelo minimalismo, talvez porque cheguemos à conclusão de que precisamos de muito pouco para sermos felizes. O momento de viragem é quando o ruído visual já nos incomoda e descobrimos que já não nos identificamos com o célebre caos organizado. Ter um sítio certo para as poucas coisas que possuímos é um descanso mental que considero essencial para quem se dedica a muitas actividades. Cedo um pouco nas estantes dos livros e na secretária. Posso desarrumar toda uma sala para fazer uma fotografia, com iluminação, tripés, reflectores, panos, objectivas, mas quando termino, o gozo em ter o devido lugar para todas as coisas faz sentir-me bem.
Em relação à música, já tive casas em que tinha piano, teclados, guitarras, amplificadores, computadores só para música com cabos por todos os lados, até que cheguei à conclusão que essa permanente oferta visual me fazia dispersar.
Desde 2006 que me dedico totalmente ao piano. Uso pianos digitais por serem mais baratos, silenciosos e, principalmente, por estarem sempre afinados. Assim, arrumei tudo o resto, a nível de experiência, e nunca mais lhe mexi.
Esta ausência de objectos obriga-me, no bom sentido, a focar no que verdadeiramente importa, e a não gastar energias em algo que não irá adiantar em nada na concretização dos meus objectivos. Isto pode soar a uma inflexibilidade militar, mas interiorizando, é muito zen e apaziguante.
A foto acima revela o meu actual espaço de trabalho. A musa, o cadeirão para ler e um simples piano para compor. É importante escolhermos o que queremos na nossa vida, mas tão importante quanto isso, é sabermos dispensar o que não nos interessa. Acreditem que a leveza compensa.