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Minimalismo Zen

Minimalismo Zen

Resolução para 2020

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© Fernando Dinis - All rights reserved

Livros. Muitos livros. E para quem tente seguir o Minimalismo, revela-se um verdadeiro problema. Quem gosta de ler, gosta do livro enquanto objecto em si, do cheiro do papel, da impressão da capa. Quem gosta de ler gosta de estantes com muitos livros, aqueles que leu e aqueles que um dia virá a ler. É uma luta interna constante, porque, quem gosta de livros, gosta de os comprar. O ritual começa desde logo na livraria.

E quando as estantes chegam ao fim? O que fazemos? Compramos mais estantes. Mas desta vez vai ser diferente. Pelo menos durante um ano. Também esgotei as estantes da minha casa, e todas as estantes da casa dos meus pais. Não há espaço para mais um livro, (há sempre a hipótese de os empilhar pelo chão, mas sou incapaz de o fazer). Dei a mim mesmo o prazo de 12 meses. Depois há que encontrar uma solução; vendê-los e ter mais espaço, voltar a ser frequentador de bibliotecas ou adquirir um e-reader.

Entretanto, vou tomar a resolução de tornar 2020 o tal ano em que deixámos para depois os livros que ainda não lemos e principalmente aqueles de que gostámos muito e andamos sempre a pensar em relê-los. Consigo assim várias coisas: não comprar (o mais importante), manter o espaço inalterado (ainda que esgotado), e ter o prazer e deleite de reler obras fantásticas, que me ajudaram a crescer, a ver o mundo sob várias perspectivas e me fizeram longas e boas companhias. 

As novidades podem esperar um ano.

Destralhar cá Dentro

DSC_4813.jpg© Fernando Dinis - All rights reserved

Ao falarmos de Minimalismo, surge imediatamente a ideia de destralhar. Ainda que esta palavra não exista, entende-se facilmente o seu uso informal. Destralhar é limpar a tralha, livrarmo-nos dos objectos sem utilidade e ganhar espaço e ambiente mais sóbrios e leves em nosso redor. Existem minimalistas extremos, tais como o japonês Fumio Sasaki ou a sul-coreana Youheum, que conseguem contar pelos dedos os objectos que têm em sua casa. Outros não tão extremistas, por exemplo o realizador Matt D'Avella, optam por vestir sempre a mesma roupa, tendo 20 peças totalmente iguais.

Há que entender que cada um deles (e cada um de nós) teve o seu percurso, a sua motivação para algo que os inquietava e para o qual encontraram a sua íntima resposta. O Minimalismo não é uma ciência exacta inflexível e tem tantos patamares quantos os que à própria pessoa dizem respeito. E isto é o mais bonito de tudo.

Nesta foto, ainda que seja um dos meus guarda-roupas, não se simboliza a minha posição no Minimalismo. Digamos que percorro o estágio interior do destralhar. Pessoalmente, e nesta fase da minha vida, experencío o minimalismo a nível mental. Procuro nao sobrepor pensamentos, praticando a atenção plena, falarei disto brevemente. Evito lugares ruidosos, espaços onde existam demasiadas pessoas. Podemos fazer as compras que precisamos nas horas de menor afluência. Mas estes são os pontos mais vísiveis da nossa escolha interior.

Se quisermos ir mais fundo, e a determinado momento da nossa vida penso que todos passamos por esta viragem, decidimos guardar a nossa energia para conversas que nos permitam aprender e partilhar conhecimento. Existem pessoas tóxicas (não falo de energia ou negatividade) que nos inundam com banalidades que entram em confronto com a leveza e foco que andamos a tentar conquistar interiormente. Pessoas que partilham o seu vazio ou a sua procura pelo supérfluo que claramente entram em dissonância com tudo o que estamos a tentar construir (ou desconstruir). Não tenhamos medo de segurarmo-nos ao nosso caminho, que sabemos necessário e intrínsecamente importante. Destralhar interiormente não se trata de afastar pessoas de nós. É decidir o que queremos experenciar, o que nos é realmente valioso e, em última instância, ter controlo e decisão sobre o que queremos para a nossa mente. Porque somos nós que vivemos com ela.

Vamos Meditar?

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© Fernando Dinis - All rights reserved

Vamos aprender algumas ferramentas que nos permitam Meditar com grande facilidade, ressalvando desde já que não existem fórmulas mágicas e eficientes para todas as pessoas. Todos somos diferentes, com ritmos e graus de entrega intrínsecos que devemos respeitar. Pedir a alguém que nunca fez meditação que faça 60 minutos de Zazen (meditação budista zen, sentado sobre um zafu, virado para uma parede, completamente imóvel) não será a melhor forma de começar. A seu tempo tudo acabará por fazer sentido. Até lá, tudo terá de ser aprazível e com resultados visíveis de melhorias e bem-estar.

Bastam 10 minutos diários e existem variadas formas para o fazer. Para facilitar quem se inicia, resumi em dois blocos importantes as inúmeras possibilidades.

 

Forma Activa – Meditação (10 minutos diários)

Forma Passiva – Tarefas do Quotidiano (caminhar, mastigar e saborear a comida, lavar um tacho, aspirar o chão).

 

Forma Activa – Meditação

Não é necessário queimar incenso, não é necessária qualquer imagem de Buda, nem recitar mantras tibetanos. Decidir meditar tem de ser tão natural como decidir sentarmo-nos um pouco no sofá e assistir a uma série de que gostamos muito.

Podemos fazê-lo sentados confortavelmente ou até mesmo deitados (atenção que se estivermos demasiado cansados, corremos o risco de adormecer, e ainda que seja isso o que o nosso corpo peça, não é o pretendido nestes 10 minutos).

As primeiras vezes que meditamos, algumas coisas poderão revelar-se como distrações, até mesmo o silêncio. Será importante nas primeiras vezes ouvir músicas calmas e relaxantes e que não exijam demasiado da nossa atenção. A ideia é termos algo onde concentrar a nossa audição para que não dispersemos nos diversos sons exteriores. Existem músicas próprias para meditação, já com 10 minutos de duração. Deixo o link de 2 músicas da minha autoria que poderão ser úteis. Poderão facilmente encontrá-las no Youtube pesquisando por Fernando Dinis Meditation.

https://www.youtube.com/watch?v=SjhA37qpEzw

https://www.youtube.com/watch?v=92rmEF6CGvM&t=550s

Durante a meditação, poderá ocorrer uma sensação contraditória: Ter demasiados pensamentos. Uns a seguir aos outros sem cessar. Muitas pessoas pensam que estarão a fazer qualquer coisa de errado. Tudo está certo. Tomámos a decisão de parar para escutar a nossa mente. É normal que ela se revele mais faladora do que nunca, apenas nunca tínhamos realmente parado para a ouvir. Por isso a música poderá ser uma grande aliada neste começo. Concentremo-nos nos sons, nos diversos instrumentos que surgem suavemente. Aos poucos, a nossa concentração irá permitir escutar a nossa respiração. Meditar com a atenção focada na nossa respiração é uma das melhores práticas, pois ganha-se uma sintonia muito grande com o nosso corpo. Teremos o prazer de perceber que a respiração torna-se mais profunda e até que os nossos batimentos cardíacos diminuem consideravelmente. Conseguimos estar tão atentos ao ar que respiramos que distinguimos as diferenças de temperatura nas nossas narinas: o ar que entra é fresco e o ar que sai é tépido.

Existem também muitas meditações guiadas. São gravações com vozes calmas que nos vão dando instruções, sobre como respirar, que postura ter, pensar em determinada parte ou membro do nosso corpo, ou a pedir que nos imaginemos no meio de um bosque ou à beira de um rio, ouvindo o suave correr da água. A app Insight Timer tem milhares de meditações prontas (mesmo em português), com a vantagem de podermos ouvi-las em qualquer lugar. 

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.spotlightsix.zentimerlite2

Mais não fazemos que dizermos à nossa mente o seguinte: “Durante estes 10 minutos vais descansar desse corrupio frenético de pensamentos. Vais parar de sobrepor camadas sobre camadas de preocupações, de tarefas que ficaram por fazer e me inquietam ou de projectos que têm de se concretizar no futuro, forçosamente. “

Podemos pensar mesmo numa certa educação da mente. Estamos a mostrar-lhe que existe uma segunda opção para lá do caos, da ansiedade pelo futuro, da mágoa pelos erros do passado. Tudo pode cessar durante esse curto espaço de tempo, e a sensação de libertação é tão grande que entenderemos facilmente o porquê de tantas pessoas meditarem.

 

Forma Passiva – Tarefas do Quotidiano

Nada é mais desgastante que estar a fazer uma tarefa e pensar que teremos outra a fazer logo de seguida. As tarefas do nosso dia-a-dia são uma óptima matéria-prima para colocarmos a meditação em prática. Se aspirarmos o chão, pensemos apenas nisso. Concentremo-nos no pavimento que vai ficando limpo, na área do tapete que se revela mais brilhante à passagem do aspirador, no lixo que estamos a remover do espaço que habitamos. Pensar nisso e fazê-lo calmamente, leva-nos à comparação de estar a remover da nossa mente pensamentos tóxicos, indesejados e desnecessários. Se esfregamos um tacho, façamo-lo com brio, retirando toda a gordura mesmo nas partes mais difíceis, da mesma forma que desejamos retirar da nossa mente panoramas negativos sobre o nosso futuro. Ao retermos a nossa concentração numa ação concreta, estamos a delimitar o espaço volátil onde surgem e se espraiam todos os pensamentos indesejados. Estamos focados e entregues a uma actividade, a concentrar a nossa energia numa só coisa e a não pensar no que virá a seguir. São processos simples mas que darão uma sensação imediata de leveza, conforto e até de proteção.

À medida que repetimos estas duas possibilidades de meditação, estamos a interiorizar processos e ferramentas para situações futuras adversas.

Não preciso de Mindfulness

17950808_uybwl.jpeg© Fernando Dinis - All rights reserved

Vamos esclarecer este mito. Todos precisamos de Mindfulness. Todos precisamos de ferramentas para apaziguar a nossa mente. Somos saudáveis com o corpo. Fazemos desporto, tentamos ter uma alimentação saudável. Mas o que fazemos para manter a nossa saúde mental?

Os tempos actuais inculcam-nos a ideia de multitasking, uma capacidade de acumular tarefas quando na maior parte das vezes elas são inconciliáveis. Se são inconciliáveis, não são naturais, se não são naturais estamos a exigir à nossa mente um comportamento adverso à nossa génese. Nada de bom poderá ser alcançado com a repetição desses erros.

Assistimos diariamente a pessoas a falar ao telemóvel enquanto caminham. Se as seguirmos por breves segundos constatamos que não caminham em linha recta; a velocidade do andar oscila consoante a intensidade da conversa; chegam a parar para verificar se escolheram a rua certa na última esquina. Onde está afinal a atenção dessa pessoa que tenta fazer duas actividades aparentemente simples? Na pessoa com quem fala ou no caminho que tem de escolher? Em nenhum dos dois.

Estudos científicos revelam que a nossa mente está distraída 47% do tempo. Numa pessoa que durma 8 horas por dias, e estando 16 horas acordada, significa que estará distraída 7h30m do seu dia; a acumular tarefas e pensamentos, ideias, sentimentos e sensações.

A agravar este estado de turbulência, de exacerbação, e ao tomarem noção de que não estão felizes (ninguém é feliz no caos), muitas pessoas entregam-se afincadamente ao trabalho, activamente, pensando assim diminuir a sensação de inquietude que, sem saberem por que existe e de onde vem, tentam sobrepor e disfarçar com a sensação de dever cumprido. Chegamos um ponto crucial: que nome damos a esta sensação de inquietude e desconforto, quase até de insegurança? Stress.

Fácil. Se estamos com stress há que eliminá-lo imediatamente. Fazer exercício físico? Sem dúvida! Começam as corridas à hora do almoço para o ginásio que até fica perto do emprego. Salta-se de máquina em máquina, toma-se um duche rapidamente porque ainda há que comer em 10 minutos antes de ir trabalhar. Será esta libertação de endorfinas suficiente e benéfica que compense o desgaste mental que estamos a acumular a tudo o resto que já estava errado em nós? Mais não fazemos que acumular várias camadas de adversidades para a nossa saúde mental e consecutiva intranquilidade.

Todos nós precisamos de Mindfulness, e para isso não é preciso abdicar de nada para o concretizar. 10 minutos diários poderão fazer diferença e desencadear uma enorme transformação individual.

Deixo um pequeno exemplo para avaliarmos o nosso estado de inquietude. Agora e mais uma vez sobre uma premissa básica do minimalismo. Não arrumamos as coisas num sítio certo por acaso. Com essa decisão não só estamos a organizar o nosso espaço como a oferecer à nossa mente um descanso. Se pretendo um garfo, eu sei que tenho de me dirigir à cozinha. Nela há um móvel com gavetas e que na primeira gaveta encontrarei os talheres, onde lá estará o garfo que necessito. Se tudo estiver arrumado no seu sítio próprio não necessitamos de obrigar o cérebro a repetir o raciocínio da procura, e resguardamos a nossa mente da incerteza de encontrar ou não o que procuramos.

Tudo isto parece demasiado óbvio. Pensem agora como está organizado o desktop do vosso computador.

Olha para dentro e o que vês?

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© Fernando Dinis - All rights reserved

O que é descer em nós mesmos se não um voltar para dentro? Ou até fazer do avesso a nossa parte visível, mas apenas aos nossos olhos? Reformulando: se trouxer muito do meu interior para fora, torno-me invisível, pois só os meus olhos se tornam capazes de me verem. O quão importante se torna nos dias de hoje olharmo-nos a nós mesmos? E se o fizermos, teremos as ferramentas necessárias para chegar à visão da nossa génese, da primeva essência? À primeira vista, são tantos os caminhos prováveis e tantas as perguntas e respostas possíveis, que nos deparamos com uma montanha muito alta de conhecimento que é preciso escalar. E não será isto viver?

Na poesia existe o lugar-comum de se olhar para dentro. A certeza de que as palavras escritas só poderão ser compreendidas pela nossa mente (capaz de sentir) e em última instância lida pelos nossos próprios olhos. É como assumir que o que escrevemos e sentimos é tão pessoal e intrínseco à nossa pessoa, que se torna uma mensagem ilegível para quem nos tente ler e compreender. Esta convicção, chamemos-lhe assim, de que alguém para além de nós é incapaz de entender o nosso sentir, colide com a assunção evocada por Novalis.

 

Toda a descida em nós

Mesmos é simultaneamente

Uma ascensão, uma assumpção,

Uma vista do verdadeiro exterior.

 

Nesse instante, que se crê introspetivo e em pleno meditativo, existe o posicionamento da nossa pessoa num lugar externo, que nos permite olhar para nós mesmos como se fossemos um outro alguém. Contudo, esta transferência ocorre, obviamente, num estado intelectual.

Indo mais além, por que razão não aproveitar esta ferramenta como uma auto-observação de quem somos, dos atos que cometemos, da forma que reagimos face ao quotidiano e principalmente perante o desconhecido? Não me parece descabido que este transe poético não se coadune com a transparente visão que se alcança em períodos de meditação; onde nos é concedida (porque a procuramos) a visão de quem somos e de quem poderemos ser.

O que parece tratar-se de uma tarefa simples, assim o não é. Se o fosse, Novalis não a teria escrito, os poetas não se cansariam em escavar as suas memórias, qualquer variante de meditação seria inócua. Se esta procura acontece, é porque dela pouco se sabe (portanto, de nós mesmos), e porque quando finalmente atingida nos proporciona uma clarividência que raramente possuímos da nossa pessoa enquanto parte de um todo. É isso que procuramos, é nisso que trabalhamos.

Mas como pode parecer o óbvio assim tão difícil de concretizar? As sociedades atuais cada vez mais estereotipadas têm o poder assustador de nos mascarar. O consumismo passou da necessidade básica para uma luta de status social cujas fasquias parecem estar sempre a elevarem-se. No budismo e hinduísmo, este consumismo é apelidado por apego, e não por necessidade. Ou seja, sempre algo que nos é oferecido, mas pelo qual temos o livre arbítrio de escolha. Consumir ou não consumir. Não é preciso ser-se oriental para entender isto. A ciência e desenvolvimento tecnológico trouxe-nos coisas boas mas também outras tantas más. Vejamos a rapidez com que o ser humano, antes dedicado ao pensamento, à arte, ao conhecimento, à própria política ou filosofia, se transformou hoje em alguém indistinto, sem individualidade assumida e refém de uma economia de consumo. Vinte anos são suficientes para se fazer uma comparação diacrónica. (Nunca a sociologia possuiu tanta tarefa em mãos).

É urgente parar. É urgente questionar quem somos e quem temos sido nas sociedades ocidentais atuais. Temos ou não o controlo dos nossos hábitos e instintos básicos; ou será que a nossa forma de interagir já será inconscientemente manipulada? Se somos manipulados, de onde vem essa força exterior? Creio que a lacuna não passa por fazermos ou não parte de uma massa humana de uma economia de consumo. Julgo ser já tarde para questionarmos isso. Mas quanto mais manipulados somos, não deveríamos ao mesmo tempo indagar porque perdemos tão facilmente o controlo de quem somos?

Há um trabalho que há a ser feito de raiz. Compreender que não precisamos de nem metade das coisas que são inventadas e vendidas na nossa sociedade, e mais do que isso, nos afastamos da nossa essência humana, primária, per se autónoma, e dedicada ao desenvolvimento do conhecimento. E este trabalho ganha em transpor a sensação de segurança (efémera) que ganhamos ao comprar conforto, comodidade, tecnologia, na matéria que existe em nós e sempre pronta a ser trabalhada. Sou forte porque questiono. Sou forte porque exercito o meu corpo. Sou saudável porque me alimento equilibradamente. Sou inteligente porque leio e procuro conhecimento e amplifico-o na troca dele com os outros. Sou humano porque conheço e respeito o sofrimento humano constante. Sou sensível porque me emociono com a arte, com a estética. Sou completo porque amo e emocionalmente tranquilo porque não prevarico em infidelidade. Sinto paz porque não desejo mais do que preciso para me sentir vivo.

Novalis lança o desafio mais atual do que nunca. Olha para dentro e o que vês? Há em ti um indivíduo único e insubstituível, ou um pedaço de massa humana dos tempos modernos, condenada ao anonimato e à subserviência?

Viver o Agora

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Por que razão se fala tanto em Mindfulness nos tempos actuais? Vivemos tempos de grandes e sucessivas transformações. O que hoje é actual, amanhã estará desactualizado. O desenvolvimento tecnológico saltou das experimentações em laboratórios para a nossa realidade. Consciente e inconscientemente, passámos a fazer parte desse avanço galopante: usamos smartphones como apêndices; registamos o trajecto de casa ao trabalho com cameras de filmar acopladas ao capacete; trocamos televisores de alta-definição por televisores com sistema 3D, destes para televisores curvos, dos curvos para os de definição 4K, dos 4K para as SmartTV, e destas para as SmartTV 8K, e por aí adiante.

Não devemos recear estes avanços tecnológicos; sabemos que fazem parte da evolução do que se conhece. Devemos, sim, recear a forma como experienciamos esta aceleração desenfreada, e ganhar consciência de que ela tem o poder de influenciar os nossos comportamentos e formas de agir e pensar.

Apresento dois casos concretos. Consultamos o Youtube para encontrar a explicação de algo que não dominamos bem e precisamos de esclarecer dúvidas, como pintar correctamente as paredes de casa, tratar do jardim ou consertar um eletrodoméstico. Depois de algumas pesquisas encontramos um vídeo de 8 minutos com a desejada explicação de outra pessoa que já viveu essa experiência e decidiu partilhar com o mundo inteiro. Estamos muito satisfeitos e gratos a assistir quando nos deparamos com a sugestão de outro vídeo, na coluna lateral, a explicar exatamente o mesmo, mas com a duração de 4 minutos. De imediato esquecemos o que estamos a ver e clicamos no vídeo mais curto. Este é um sinal claríssimo da incorporação involuntária da velocidade dos tempos actuais. Estamos a tornar-nos pessoas menos pacientes, ávidas por um conhecimento rápido mas pouco aprofundado e consistente, tudo porque à nossa volta sugere rapidez e velocidade, e toda a escolha que contrarie esta premissa nos parece dar a sensação de estarmos a perder tempo.

Outro caso concreto é já não sabermos viver o presente. Há dois anos, fui assistir a um concerto da banda Muse. Os bilhetes eram caros e a procura tão grande que tiveram de ser comprados com 6 meses de antecedência, sobre o risco de esgotarem rapidamente. E esgotaram, para duas datas extra. Chegado o dia desejado do concerto, entrámos na sala de espectáculo com grande euforia, eu, a minha mulher e muitas centenas de outras pessoas. Até aqui tudo normal. Contudo, aos primeiros minutos de som, com os artistas que tanto desejávamos ver mesmo à nossa frente, algo deixou-me estarrecido. Um grande número de pessoas filmava o concerto através dos seus telemóveis; podia ver através dos écrans que faziam partilhas live do concerto para os seus murais das redes sociais, certamente para partilharem com os amigos e mostrar a todos que estavam ali presentes, que tinham conseguido os bilhetes e que estavam a viver uma experiência inesquecível das suas vidas. E estavam mesmo? Não. Ao dedicarem a sua atenção em fazer o vídeo, não estavam totalmente atentos ao concerto que tanto desejaram durante 6 meses. Gravar um vídeo pressupõe a intenção de o rever num futuro próximo ou longínquo, mas nunca com as condições autênticas de som e imagem que se tem ao estar presente. O pensamento dessas pessoas durante aquele concerto residia no futuro, não estavam totalmente presentes; condicionavam a experiência do presente único e irrepetível, e por isso belo e inesquecível, em detrimento de um futuro com condições muito aquém das desejadas. Isto mostrou-me claramente que algo em nós está profundamente errado.

Saber Parar

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© Fernando Dinis - All rights reserved

É cada vez maior o número dos famosos casos de 'burnout', uma designação moderna do esgotamento e consequentes estágios de depressão. Parece que as pessoas só acordaram para este 'acontecimento' quando o padrão se instalou nos gestores de topo e de altos cargos directivos. Como se este problema (doença?) só através deles ganhasse importância, ou pelo menos, uma maior disseminação da sua existência e consequente aceitação social. A palavra Mindfulness não 'magoa' tanto como terapia, meditação ou 'ajuda psicológica'. Mas não são estas questões semânticas que me preocupam. Temos um verdadeiro problema actual. 

Há que saber parar. Grandes empresas mundiais já dispõem de salas dedicadas à meditação. A Google é uma delas, sendo um dos executivos de topo, Chade-Meng Tan, o próprio orientador dessas meditações.

Medito há 8 anos. Experimentei ao longo deste tempo as mais variadas vertentes. Meditações hindus, tibetanas, ayurvédicas, zen, yoguis, activas, xâmanicas, etc... Na verdade, todas elas têm muito em comum e a sua finalidade é a mesma. Não acho que exista necessidade em percorrê-las todas para o mais importante: Meditar. Não é sequer necessário (ao contrário do que muitas pessoas pensam) aderir a esta ou àquela religião. Meditar é respirar, é concentrar a nossa atenção para que não dispersemos, é virarmo-nos para dentro e conhecer melhor a nossa essência. Os resultados são tão visíveis como aqueles para quem decide praticar um desporto. Há estranheza, curiosidade, desenvolvimento e paixão. Exercitar o nosso físico é fundamental, assim como a nossa mente, treinar a nossa concentração e conhecer os nossos limites para que saibamos estar atentos aos sinais internos do nosso corpo. A meditação é também isto.