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Minimalismo Zen

Minimalismo Zen

19 de Dezembro, 2020

Feliz Consumismo

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Desaprendemos a beleza da quietude, da vagarosidade, do simples estar. Em poucos anos, o nosso mimetismo ao acompanhar os desenvolvimentos tecnológicos tornaram-nos em pessoas ocupadas, entregues a multitarefas. Invenções que passaram a fazer parte da nossa vida e do nosso tempo. Do nosso precioso tempo. Reparam na facilidade com que somos capazes de dizer a alguém, frente a frente, para esperar um minuto porque estamos a receber uma chamada pelo telemóvel? Que assunto ganha em importância? Por que razão se dá prioridade a quem liga e viramos costas a quem está connosco? As prioridades são questionáveis, face aos assuntos tratados por essas via de comunicação. As relações passaram das tácitas normas da boa educação para um aceitável e insensível desprendimento. As redes sociais moldam-nos com novos maneirismos: fazer scrolling indefinidamente, ler apenas os cabeçalhos das notícias, fazer like de um texto sem o ler até ao fim só porque quem o escreveu é nosso conhecido, em suma, uma efémera passagem por todas as coisas e o seu fácil consequente abandono estão há muito a minar os nossos comportamentos interpessoais, a nossa relação de afectividade para com os outros e o genuíno interesse a ser encapotado por uma repentina necessidade de término; porque há que estar disponível para tudo o que vier a seguir. Mesmo que este tudo se venha a revelar mais do mesmo que víramos no dia anterior e que iremos ver no dia seguinte. Se pararmos um pouco e nos perguntarmos quando isto começou acharemos o tempo de 20 anos, aproximadamente. Mas então as comunicações eram caras e inacessíveis; os satélites geoestacionários eram poucos, os cabos submarinos obsoletos e congestionados, o material utilizado era monopolizado por grandes marcas que desenvolviam tecnologias próprias trancando o inevitável desenvolvimento que as regras da normalização de construção viriam a tornar acessíveis. Ainda assim, esses impérios continuam a existir, já com a nossa conivência, ainda que os componentes de computação sejam finalmente possíveis de se replicar a variados preços, desde que cumpram os requisitos das normas. Estes escassos 20 anos foram suficientes para nos identificarmos com determinada marca e design, linguagens e modos de interacção. Mantém-se uma eterna questão: Fomos ao encontro do que nos foi oferecido ou ofereceram-nos o que nós procurávamos?

Mas retomemos o pensamento inicial: Enquanto a evolução tecnológica dava um passo de cada vez e o custo na aquisição de equipamentos era ainda muito dispendioso, o nosso tempo não corria risco. Chegávamos a esperar por um acontecimento ou avanço tecnológico que acontecia com vários anos de separação. Lembremo-nos dos modems a 56 Kbps ou dos famosos bippers. Lembremo-nos da melhoria na qualidade de voz que sentimos na 2G da rede móvel. O primeiro MMS. A euforia que foi quando o nosso pacote de comunicações contemplava um sem-número de SMS. Acontece que neste momento fomos engolidos pela velocidade voraz da tecnologia. Há muito que é a tecnologia a esperar por nós, e não o contrário, e já não é a nossa curiosidade em sermos infoincluídos mas sim a fria e calculista sinergia entre economia e tecnologia a ditar o que é ou não imprescindível na nossa vida. Ao mesmo tempo que as operadoras começam finalmente a transmitir os seus canais em resolução HD e 4K, somos tentados pela Netflix e HBO, levando-nos precisamente a olhar os conteúdos televisivos como ultrapassados. O desnorte é certo. O nosso tempo está a ser compulsivamente consumido por algo que já não é a nossa escolha. Até quando vamos pensar que conseguiremos acompanhar a velocidade de tudo o que é novo e imperdível de ser experimentado e adquirido? O que andamos a fazer com o nosso tempo? Com o nosso precioso tempo?

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